4.3.08

O que dizem as rosas


É engraçado. Ainda ontem, entreguei uma crônica para ser publicada no próximo fim-de-semana, e já agora percebo o quanto está permeada de mentiras. Mentiras, bom, talvez seja um termo brusco demais. Mas são certamente inverdades. No texto, desenvolvo as impressões que me causou a visão de uma mulher que cheirava uma rosa com o semblante pétreo de quem encarou Medusa. Isso aconteceu, sim; e é verdade que o fato desencadeou em mim uma corredeira de pensamentos. Todo o resto que escrevi não passa de suposições.

Ora, supor é diferente de inventar, no sentido de criar eventos, ficções, quiçá mentiras. A suposição é uma atitude legítima, provavelmente o atributo fundamental da mente humana, princípio de todos os demais. Só que implica certos riscos. Pode acontecer de alguém se perder nas próprias conjecturas, quando se entrega sem ressalvas às libertinagens do espírito. Resultado: acaba tomando por verdadeiras coisas que não o são. Meras hipóteses, sintetizadas por uma imaginação sem vergonha. Acho que foi o que houve comigo.

Não vi quando ela se agachou para recolher a rosa. Apenas supus que ninguém compraria uma flor tão pequena, amassada, indigna. Ela foi certamente resgatada do desprezo da calçada. Tampouco virei o rosto para acompanhar o gesto final de desprezo da mulher, atirando a planta de volta a seu chão. Sei, de alguma maneira inexplicável, que ela o fez. Mas não vi. É inconcebível, ao menos para mim, que alguém mantenha a expressão tão rija ao sorver o perfume de uma flor, sem depois atirá-la à distância.

Finalmente, no momento em que a cena se desenrolava, não pensei, como escrevi na crônica, no milagre da técnica humana que traz flores – e, aliás, frutas – à Europa em pleno inverno. O raciocínio existiu, por certo, senão jamais poderia ter sido redigido. Mas foi posterior, fruto já do conforto do aquecimento, com um copo entre os dedos. Na hora, a autêntica, o que me veio à mente foi coisa muito diversa.

No instante em que o nariz da mulher roçou a ponta das pétalas, lembrei-me foi de Cartola. Da mais célebre de suas estrofes, dentre tantos versos fabulosos: Queixo-me às rosas / Mas, que bobagem, as rosas não falam, / Simplesmente, as rosas exalam / o perfume que roubam de ti, ai! Antes que interpretem a lembrança como um elogio à amazona, garanto que não foi dela que a flor roubou seu perfume. Que fragrância pode emanar a mulher que despreza uma flor enquanto a cheira? Aquela, do alto de seu salto agulha, exalava no máximo a boa meia hora que passou no metrô abarrotado.

Lembrei de Cartola porque sempre me lembro dele. Não sei por que isso acontece. O pai da Mangueira ronda minhas especulações como um fantasma. Visitando o Brasil, constatei o banzo de que sofro ao tentar acompanhar a letra de Cordas de Aço e não conseguir porque, no meio do caminho, tinha a voz embargada. Por quê? E por que, de tanta boa música no Brasil que saltita em torno de rosas e flores, como uma ciranda temática, fui lembrar que as rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti?

A mulher fria cheirou a rosa sem cheirá-la, sem tentar queixar-se a ela, nem entender de onde vinha o perfume. Mas, curiosamente, foi graças a ela que entendi em que palavra se concentra a força arrasadora dessa estrofe. Pois afirmo, sem recurso: está no advérbio. Ao cravar um singelo "simplesmente" no meio de seu poema, o eterno Angenor de Oliveira fez de um samba, monumento. Uma mera palavra concentra as instruções para cantar – e tocar, claro – a música inteira. Pena que a maioria dos intérpretes não o perceba.

O próprio Cartola gravou sua música com um tom tão prosaico, que derrubaria mesmo a francesa que não sabe cheirar flores. Ele canta As Rosas Não Falam no tom exato em que qualquer mulher acredita no que ele diz. A menor variação transformaria o discurso em cantada barata: as rosas exalam o perfume que roubam de ti, boneca. Se, no lugar do "simplesmente", o autor cometesse algo como "inversamente", "ao contrário" ou "em vez disso", a composição inteira estaria morta. Mas aí não seria o gênio, não seria Cartola.

Eis a verdade sobre o que pensei, de pé na calçada, tomando chuva, depois que perdi de vista a infeliz desalmada. A lembrança se reavivou de repente, enquanto eu pensava outras coisas, como queria Henri Bergson. O resto são elucubrações. Incrível como é preciso aceitar um pouco de mentira para produzir textos, evocar sentimentos, transmitir verdades.

Pois sim, a verdade vem sempre entremeada de incorreções e autênticas mentiras. O mesmo vale para a memória. A pureza, queremos crer que está em algum canto, elegemos-lhe um santo, construímos um altar para adorá-la. Admito que é ingenuidade minha, resolver assim depositar na autoridade da música de Cartola toda minha ilusão de pureza. Enfim, é o que é. Mas vou limpar a mente / Sei que errei, errei inocente.

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12.2.08

Vento gelado, chuva e calor


Houve um tempo em que eu era ranzinza, muito ranzinza. Procurava o ponto mais negativo de todas as coisas, para em seguida cumprir a tarefa demolidora de casmurro com zelo quase prussiano. Mas casmurro, no fundo, nunca fui: achava o ápice da elegância enfileirar reclamações sarcásticas contra tudo que me parecesse incômodo, do tempo ao trânsito, da política ao futebol.

Era, vamos colocar assim, uma estratégia retórica. Alguém que saiba metralhar críticas aleatórias passa, por motivos que não compreendo, a impressão de possuir uma inteligência superior. Se o fizer com termos e locuções bem escolhidos, então, proporciona boas risadas aos circunstantes; com isso, sempre recebe convites para as soirées de uísque e charutos. Bom negócio, que não passou despercebido de quase nenhum dos nossos cronistas e literatos em geral, essa gente que, como sabemos, jamais dispensa uma boa dose e um bom fumo, contanto que não seja cubano.

De repente, percebo que minha rabugice me abandonou. Ainda pronuncio, sim, comentários maldosos; só que, agora, escrevo com irritação e agressividade apenas quando o assunto me irrita e agride. Admito que esse ainda é um gênero predominante, com folga, neste espaço. Mas, que posso fazer?, este mundo está recheado de coisas irritantes e agressivas.

É certo, ao menos, que meus comentários sardônicos se despiram da gratuidade preguiçosa que os engessava. É uma lástima que essa leviandade ainda bloqueie a eficácia de tantas mentes brilhantes por aí. Mas acho que escapei, pelo menos por enquanto. Resultado: agora estou livre para sustentar uma opinião favorável a qualquer coisa sem, com isso, me sentir uma Poliana alienada (Céus! Sacrilégio! Cometi uma tautologia! Azar...).

Resumindo, é libertador e recomendo a todos.

Pois agora que já compartilhei a constatação revolucionária, quero acrescentar o relato de como cheguei a ela, para não passar a impressão de só pensar em abobrinhas enquanto vou rabiscando a esperar o metrô. Os processos da vida, como se sabe, vão passando, mas nós não costumamos nos aperceber. Até que, belo dia, eles se revelam de supetão, como um pontapé na canela. Daí nossa dificuldade atávica em reconhecer o devir, ele que é tão evidente...

Muito bem: terminou ontem minha breve passagem (breve e agitada, a propósito) pelo Brasil. Voltei com tantas impressões na cabeça, e tão fortes, que não sei nem por onde começar a escrever. Conjecturando sobre minha própria confusão mental, saí de casa – hoje foi um belíssimo dia de sol – e dei ao vento a oportunidade que ele esperava para me agredir com um sopapo frio. As temperaturas, logo descobri, andam variando entre 1oC ao nascer do dia e 10oC durante o almoço.

Contra um velho hábito que eu costumava tomar por natureza minha, a sensação me pareceu muito agradável. A ponto de começar a sorrir em plena rua, ó, escândalo inaceitável nesta cidade. Na minha atitude normal, eu não hesitaria em maldizer o clima; na secura do inverno, não menos do que na sudorese do estio. Ou seja, algo mudou. Hoje, sou um mortal que aprecia os casacos quando são necessários, tanto quanto respira o mormaço carioca com a camisa aberta, satisfeito. Dou vivas aos opostos e não vejo motivos para agir de outra maneira.

Como quando, na companhia de um punhado de amigos e uma multidão de desconhecidos, eu subia uma ladeira da velha Laranjeiras, entre os casarões e atrás da batucada. Fazia calor, é claro. Uma fornalha de foliões que seria pior ainda se o céu não se mantivesse pudicamente encoberto. A turma toda entornava cervejas e reclamava da temperatura opressiva; sem por isso parar de pular. Eis que chega a chuva. Diz a lógica mais castiça que, eliminado o motivo, as queixas devem cessar. Mas qual. O folião, pelo visto, aceita melhor o tostar do que o molhar, embora solte impropérios contra ambos. Enquanto eu me refrescava com o arremedo de chuva, meus vizinhos corriam para se proteger e rompiam com São Pedro.

Foi assim que descobri o quanto mudou minha atitude perante o mundo, conforme expliquei. Creio agora, piamente, que mesmo na mais ácida das personalidades é fundamental deixar reservado um canto para o bem querer e o bem estar. Ao cronista bruto, paz de espírito parece, às vezes, vício de poeta; mas nem tudo na poesia é vício. O olhar sobre o mundo não pode perder jamais a rigidez crítica que o solidifica. Mas mesmo o que é sólido pode trincar e espatifar-se; já a ternura e o lirismo dão a mistura que faz de qualquer idéia um organismo saudável, flexível e elástico. E o que, a um tempo, é maciço e flexível, ora, não quebra jamais.

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25.1.08

À casa torno


Me preparando para embarcar rumo ao Brasil. O pensamentos em direções dispersas, disparado, partido entre deixar uma certa ordem na vida para as duas semanas de ausência e a organização da corrida febril que deveria ser descanso. Doze dias entre os meus, doze vezes doze pessoas a rever e abraçar, doze mil papos a colocar em dia.

E quantos dias! Mais de quinze meses afastado do chão em que se construiu minha história. Apartado de uma forma de viver, bem específica, que corre em meu sangue. Entre gentes que me sabem forasteiro, no esforço para minorar as diferenças. Obrigando-me a adaptar o comportamento. Ainda sou o mesmo, eu me reconheço assim. Mas, tão pouco tempo passado, já não sou bem igual, não é só fachada. As roupas que uso, jamais usaria em minha terra. A indumentária que aqui é corriqueira, é exótica aí, e não mais me incomoda parecer exótico aos olhos dos meus conaturais.

E mais, algo bem pior, que o espelho denuncia: tenho a tez de uma assombração. Minha palidez, digno atestado do continente em que vivo, talvez ofenda as sensibilidades nacionais. Não é exagero meu. Um raio de sol brasileiro, refletido em minha testa, arrisca ofuscar os motoristas. Que perigo, posso causar um desastre. Assim, entre as visitas, as questões burocráticas e as tulipas de chope, cumpre encaixar o compromisso diário com a praia ou, na falta dela, uma piscina, uma laje, qualquer coisa exposta ao mormaço.

Pensamentos bestas! Quando eu deveria estar concentrado nos horários dos médicos, nas cidades a conciliar, na pausa forçada que vai me impor o carnaval! Sim, reitero, a folia é pausa forçada. Mas nem por isso é menos bem-vinda. É hora de mapear os blocos e as rodas de choro, bela oportunidade de ouvir ao vivo a música que só tenho recebido pelos próprios discos. Ora, eu, que deveria me preocupar com minha agenda, só tenho cabeça para ouvir chorinho.

Será estranho, se eu sair do aeroporto e um taxista me abordar num arremedo de inglês. Vou pensar que ninguém quer falar comigo na minha língua, nem mesmo no meu próprio país. Talvez eu ria, talvez eu rosne. Vamos ver. Nada de levantar hipóteses à toa. Ser confundido com um turista sem rumo já me aconteceu, e não é das melhores experiências, sobretudo no Brasil. Mas meu humor pode estar tão bom que eu engate uma longa conversa sobre the book that is on the table.

Já veio me dizer um amigo que, sem dúvida, de um jeito ou de outro, vai ser estranho. Nas primeiras horas, o habitual de outrora tem cara de novidade. As reações não se dão naturalmente. Você tem plena consciência de que já chegou, mas a melodia, o jogo de corpo, a postura displicente, que antes não renderiam um mínimo relance de atenção, renascem como elementos de estudo antropológico. Foi o que aconteceu com ele, garante.

Diz esse amigo que, ao carregar com mais freqüência o passaporte do que o CPF, você é introduzido num certo limbo. Não é nativo de verdade, nem muito menos gringo. Essa mutilação radical das raízes me parece fantasiosa, mas, ele afirma, pode até ser vantagem. Com um pouco de boa vontade, você se transforma em observador privilegiado de ambos os campos: morador que aprende, visitante que conhece.

A perspectiva é auspiciosa, mas tensa. Eu não me sinto confortável com a oportunidade, tão próxima, de colocá-la à prova. A chegada do descanso empolga a fadiga das minhas mandíbulas e têmporas. A hora da viagem traz à tona meu lado prático, de hábito atrofiado e subnutrido, mas nem por isso ausente. A perspectiva dos almoços em família potencializa uma saudade que interfere no bom raciocínio. Essa vibração interna suplanta com sobras a apreensão quanto ao reencontro com o país. Não sei o que vou pensar ou sentir. Por si só, isso já será uma surpresa.

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